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Nova rota ferroviária entre o Zimbabwe e Maputo: o que muda nos custos em Moçambique

Nova rota ferroviária transporta lítio do Zimbabwe até ao Porto de Maputo. Saiba como funciona o corredor, quem participa e quais actividades podem beneficiar em Moçambique.

A nova rota de carga entre o Zimbabwe e Maputo começou a ser utilizada para transportar concentrado de lítio da mina de Gwanda, no sul do Zimbabwe, até ao Porto de Maputo. A primeira composição levou 1.000 toneladas do mineral por um percurso ferroviário de quase 1.000 quilómetros, informa a redacção do Infromoz, citando a Reuters e dados divulgados pela National Railways of Zimbabwe, a empresa ferroviária estatal zimbabweana.

A operação não consiste no envio de alimentos, combustível ou produtos de consumo do Zimbabwe para o mercado moçambicano. Trata-se de uma rota de exportação de matéria-prima mineral, criada para substituir parte do transporte rodoviário do lítio por uma solução ferroviária considerada menos dispendiosa e menos exposta a congestionamentos, atrasos fronteiriços e limitações na disponibilidade de camiões. Para Moçambique, o efeito imediato concentra-se na movimentação ferroviária, no manuseamento portuário e nos serviços logísticos ligados à passagem da carga até ao embarque internacional.

Como funciona a nova ligação ferroviária

A operação reúne três entidades principais: a estatal National Railways of Zimbabwe, a Beitbridge Bulawayo Railway, subsidiária do grupo sul-africano Grindrod, e a empresa logística zimbabweana Silvergill. O concentrado transportado na primeira viagem saiu da mina de lítio de Gwanda, pertencente ao grupo chinês Tsingshan Holding.

O trajecto está dividido em três partes:

A extensão total aproxima-se de 1.000 quilómetros. A Linha do Limpopo é a maior do sistema ferroviário sul de Moçambique e liga o Porto de Maputo ao Zimbabwe. Segundo os Caminhos de Ferro de Moçambique, o traçado possui 522 quilómetros, 12 estações e 19 apeadeiros.

O primeiro carregamento representa uma nova alternativa ferroviária para uma mercadoria que era transportada sobretudo por estrada até aos portos de exportação.

O transporte rodoviário continuará a fazer parte da cadeia logística das minas zimbabweanas, mas a ferrovia permite deslocar grandes volumes de carga a granel numa única composição. A solução procura reduzir a dependência de camiões, sobretudo nos trajectos longos entre as zonas mineiras do interior e os portos do Oceano Índico.

Que produtos podem ficar mais baratos em Moçambique

A carga anunciada é concentrado de lítio destinado à exportação. Por essa razão, a abertura do corredor não cria uma redução directa nos preços dos alimentos, combustíveis, medicamentos, electrodomésticos ou materiais de construção vendidos em Moçambique.

O efeito económico documentado está nos custos da própria cadeia de transporte do mineral. A utilização regular da ferrovia pode distribuir os custos operacionais por volumes maiores e gerar actividade para os serviços que participam no percurso da carga.

As áreas directamente ligadas à operação são:

Isso significa que o benefício inicial não aparece na forma de produtos mais baratos nas lojas. Aparece no aumento do volume de carga processado pela rede ferroviária e pelo Porto de Maputo, assim como nas receitas obtidas pelos operadores moçambicanos responsáveis pelo corredor.

A possibilidade de qualquer redução de preços no mercado interno dependeria da utilização futura da ligação para transportar importações destinadas a Moçambique ou de uma redução comprovada dos custos logísticos aplicada a mercadorias vendidas no país. A primeira operação divulgada não inclui esse tipo de carga.

Porto de Maputo ganha uma nova corrente de carga

A entrada do lítio zimbabweano diversifica as mercadorias movimentadas através do sul de Moçambique. O Porto de Maputo já funciona como plataforma regional para cargas provenientes de países sem acesso directo ao mar, mas a nova operação acrescenta um fluxo ligado à cadeia internacional de minerais utilizados na produção de baterias.

O concentrado de lítio que chega a Maputo segue para mercados externos. Grande parte dos minerais produzidos no Zimbabwe é exportada para a China, onde passa por etapas adicionais de processamento industrial. Em 2025, o Zimbabwe exportou 1,13 milhão de toneladas de concentrado de espodumena para o mercado chinês, volume equivalente a cerca de 15% das importações chinesas desse tipo de concentrado naquele ano.

O lítio é utilizado principalmente em baterias recarregáveis destinadas a veículos eléctricos, telemóveis, computadores portáteis e sistemas estacionários de armazenamento de energia. Contudo, o facto de o mineral passar por Maputo não significa que esses equipamentos sejam produzidos ou vendidos a preços inferiores em Moçambique. O porto e a ferrovia prestam um serviço de trânsito e exportação.

O valor criado em território moçambicano está associado ao transporte e ao processamento logístico da carga, não à transformação industrial do lítio em baterias.

A regularidade dos comboios será decisiva para determinar a dimensão económica do novo fluxo. Uma única composição de 1.000 toneladas estabelece a viabilidade operacional do trajecto, mas receitas permanentes dependem da repetição das viagens, da disponibilidade de vagões e locomotivas e da capacidade de manter a Linha do Limpopo operacional.

Linha do Limpopo voltou a operar após danos causados pelas cheias

A nova operação ocorre poucos meses depois da reabertura da Linha do Limpopo. A circulação foi retomada em 1 de Maio de 2026, após cerca de três meses de interrupção provocada pelas cheias e inundações que atingiram o sul de Moçambique em Janeiro. Os danos afectaram vias, sistemas de drenagem e outras infra-estruturas necessárias ao transporte ferroviário.

Segundo os Caminhos de Ferro de Moçambique, mais de uma centena de comboios deixou de circular durante a interrupção. A empresa estimou perdas globais superiores a 47 milhões de dólares até 17 de Abril, incluindo 12,75 milhões de dólares relacionados com carga não transportada e cerca de 25 milhões destinados à reparação e reposição de infra-estruturas e equipamentos.

“Vocês deram-nos um presente, que é ter a linha pronta para a circulação dos comboios” (Agostinho Langa Júnior, presidente do Conselho de Administração dos CFM, aos trabalhadores envolvidos na recuperação da Linha do Limpopo, durante a cerimónia de reabertura em Maio de 2026).

A empresa informou que os trabalhos continuaram mesmo depois da retoma da circulação, porque ainda eram necessários acabamentos e intervenções complementares em diferentes pontos da linha.

“Apesar de o comboio já estar a circular, há ainda trabalhos que vão sendo feitos” (Agostinho Langa Júnior, ao explicar o estado da recuperação da Linha do Limpopo após a reabertura do tráfego).

A recuperação do corredor permitiu restabelecer a ligação ferroviária entre Maputo e o Zimbabwe e criou as condições para a circulação do primeiro comboio de concentrado de lítio proveniente de Gwanda.

Zimbabwe procura reduzir a dependência do transporte rodoviário

A ferrovia estatal zimbabweana enfrenta limitações provocadas por anos de investimento insuficiente. O volume anual transportado pela National Railways of Zimbabwe caiu de cerca de 12 milhões de toneladas durante a década de 1990 para dois milhões de toneladas em 2025. Para aumentar a capacidade, a empresa passou a trabalhar com operadores privados que disponibilizam locomotivas, vagões e serviços logísticos.

A nova rota integra essa estratégia. As principais minas de lítio do Zimbabwe estão localizadas ao longo de um eixo ferroviário que permite encaminhar a produção em direcção a Moçambique. O uso de Maputo amplia as alternativas disponíveis para os produtores e reduz a pressão sobre o transporte exclusivamente rodoviário.

Empresas chinesas como Zhejiang Huayou Cobalt, Sinomine, Sichuan Yahua, Chengxin Lithium e Tsingshan ocupam uma posição central no sector zimbabweano. Desde 2021, os investimentos chineses em minas e unidades de processamento no país atingiram cerca de dois mil milhões de dólares.

O Zimbabwe também pretende aumentar o processamento interno antes da exportação. Produtores projectam que as exportações de sulfato de lítio, um produto intermédio utilizado no fabrico de químicos para baterias, possam alcançar 344 mil toneladas por ano até 2030.

O que a nova rota representa para Moçambique

Para Moçambique, a ligação acrescenta carga à Linha do Limpopo e ao Porto de Maputo, aumenta a utilização da infra-estrutura recuperada após as cheias e reforça a função do país como acesso marítimo para economias do interior da África Austral.

Os efeitos directos concentram-se em três pontos:

  1. maior procura por transporte ferroviário e serviços dos CFM;
  2. crescimento da movimentação e do manuseamento de carga no Porto de Maputo;
  3. geração de receitas logísticas associadas ao trânsito internacional do mineral.

A rota não foi apresentada como um corredor de abastecimento do mercado moçambicano. O primeiro carregamento é uma operação de exportação de lítio do Zimbabwe através de infra-estruturas de Moçambique. Assim, não existe uma lista de produtos de consumo que passem automaticamente a custar menos no país.

O resultado mensurável será determinado pelo número de comboios, pelo volume anual transportado e pela continuidade operacional do corredor. Quanto maior e mais regular for a corrente de carga, maior será a utilização das linhas, dos terminais, dos serviços portuários e das empresas envolvidas na logística entre Chicualacuala e Maputo.

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