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África depende de investigação estrangeira em saúde: cientista moçambicano alerta para riscos

África continua dependente de testes, vacinas e medicamentos estrangeiros. Eduardo Samo Gudo defende investimento em investigação, tecnologia, indústria farmacêutica e formação científica local.

A investigação em saúde em África precisa de financiamento contínuo, capacidade tecnológica e ligação à indústria para que o continente deixe de esperar por testes, medicamentos e vacinas desenvolvidos no exterior quando surge uma nova ameaça sanitária. O alerta foi feito pelo director-geral do Instituto Nacional de Saúde de Moçambique, Eduardo Samo Gudo, durante uma mesa-redonda realizada em Maputo, como noticia a redacção de Infromoz.

Samo Gudo defendeu que governos africanos tratem a ciência, a inovação e o desenvolvimento tecnológico como componentes permanentes da preparação para epidemias. A dependência não se limita à compra de produtos acabados: começa na investigação, passa pela criação de testes e diagnósticos, alcança o desenvolvimento clínico e termina na produção industrial de tratamentos e vacinas. Quando essas etapas são realizadas fora do continente, os países africanos ficam sujeitos aos calendários, prioridades e capacidades produtivas de instituições estrangeiras.

O responsável falava em 16 de Julho, no V Simpósio em Saúde Global da Fundação Manhiça, organizado no Centro Cultural Moçambique-China, em Maputo. A iniciativa integrou as celebrações dos 30 anos do Centro de Investigação em Saúde de Manhiça e reuniu especialistas para discutir liderança científica, financiamento, cooperação e desenvolvimento de soluções sanitárias.

“Nós temos de investir na ciência, na inovação, no desenvolvimento tecnológico.”

(Eduardo Samo Gudo, director-geral do INS, durante o simpósio realizado em Maputo, em 16 de Julho de 2026.)

Dependência começa nos testes e diagnósticos

Uma epidemia não pode ser controlada apenas com hospitais e equipas clínicas. Antes do tratamento, é necessário identificar o agente infeccioso, desenvolver métodos de diagnóstico, validar os testes, preparar laboratórios e organizar a vigilância epidemiológica. Quando os países não dominam essas etapas, precisam de importar equipamentos, reagentes, protocolos laboratoriais e produtos de diagnóstico.

Samo Gudo afirmou que África não deve continuar à espera de que países ricos desenvolvam os testes necessários sempre que aparece uma doença nova. O mesmo raciocínio aplica-se aos medicamentos, tratamentos e vacinas. Para o director do INS, o continente precisa de capacidade própria para preparar-se, prevenir surtos e responder aos desafios actuais e futuros.

A experiência com a mpox mostrou uma consequência concreta dessa dependência. Durante o surto africano, várias regiões enfrentaram limitações laboratoriais, enquanto os testes aprovados internacionalmente eram produzidos na América do Norte, Europa ou Ásia. Em algumas zonas da República Democrática do Congo, as amostras tinham de ser transportadas para laboratórios distantes, dificultando a confirmação dos casos e o acompanhamento da transmissão.

Em 2024, uma empresa marroquina começou a produzir testes moleculares de mpox destinados a países africanos. O desenvolvimento local reduziu a necessidade de esperar por fornecimentos provenientes da Europa ou da Ásia e mostrou que unidades científicas africanas podem adaptar a produção às doenças que circulam no próprio continente.

As consequências práticas da dependência externa incluem:

Sem diagnóstico acessível, os sistemas de saúde não conseguem medir correctamente a dimensão de um surto, localizar cadeias de transmissão ou distribuir recursos com precisão.

Investigação deve responder às doenças que afectam o continente

A agenda científica internacional nem sempre coincide com as prioridades epidemiológicas de cada país africano. Doenças infecciosas, problemas de saúde materno-infantil, enfermidades crónicas, resistência antimicrobiana, impactos climáticos e fragilidades dos sistemas de saúde exigem estudos realizados em populações, ambientes e instituições locais.

A Agenda de Investigação em Saúde Humana de Moçambique para 2024–2028 estabelece que os recursos governamentais devem ser utilizados para estudar temas prioritários do país. O documento identifica três pilares para a execução dessa política: recursos humanos, desenvolvimento institucional e financiamento. Também prevê um programa de financiamento do INS com fundos para investigação, vigilância e bolsas destinadas a pessoal técnico-científico.

O levantamento nacional relativo ao período de 2017 a 2022 registou 2.226 projectos de investigação em saúde em Moçambique. As áreas analisadas incluíram doenças infecciosas, medicina preventiva e saúde pública, sistemas de saúde, doenças crónicas e não transmissíveis, saúde materno-infantil e medicinas alternativas.

Os dados também revelaram limitações estruturais. Entre 889 projectos com informação sobre recursos financeiros, 27,8% recorreram a financiamento competitivo e 25,8% foram financiados pelos próprios investigadores.

Apenas 0,3% apareceu na categoria de financiamento do governo local, enquanto 15,3% dos projectos foram registados sem financiamento. Parte do autofinanciamento estava ligada a trabalhos académicos de conclusão de curso.

Esses números mostram que a produção científica existente nem sempre dispõe de uma base financeira institucional estável. Projectos dependentes de concursos, fundos pessoais ou cooperação temporária podem produzir resultados relevantes, mas enfrentam dificuldades para manter laboratórios, acompanhar participantes durante vários anos, formar equipas permanentes ou transformar descobertas em produtos de saúde.

INS, universidades e centros precisam de financiamento previsível

O reforço da investigação em saúde em África depende de instituições capazes de trabalhar antes, durante e depois das emergências. Isso inclui institutos nacionais de saúde, universidades, centros clínicos, laboratórios públicos, autoridades reguladoras e empresas farmacêuticas.

Moçambique já possui uma base institucional reconhecida. A Organização Mundial da Saúde destaca o Instituto Nacional de Saúde, o Centro de Investigação em Saúde de Manhiça e o Centro de Investigação e Treino da Polana Caniço entre as instituições que contribuíram para estudos de vacinas e saúde pública.

O problema central é garantir continuidade. A manutenção de uma estrutura científica exige recursos para:

A estratégia moçambicana de investigação determina que o desenvolvimento dos recursos humanos deve partir das necessidades das áreas prioritárias. O documento recomenda que as instituições invistam na capacitação científica e no fortalecimento institucional, em vez de tratarem a formação como uma actividade isolada de curta duração.

Moçambique também aprovou um Plano Estratégico de Genómica Integrada para 2026–2035. O objectivo é melhorar a previsão, prevenção, detecção e resposta às ameaças de saúde pública, incluindo a criação de uma rede nacional de genómica integrada. A capacidade genómica permite identificar agentes patogénicos, acompanhar variantes e apoiar decisões sobre diagnóstico e tratamento.

O laboratório que apenas recebe tecnologia estrangeira permanece dependente; o laboratório que forma especialistas, produz dados e desenvolve métodos próprios passa a integrar a resposta sanitária nacional.

Fuga de especialistas reduz capacidade científica

A formação de investigadores exige anos de investimento em licenciaturas, pós-graduações, especializações laboratoriais, epidemiologia, bioinformática, estatística e investigação clínica. Quando profissionais qualificados deixam instituições africanas por falta de condições de trabalho, os países perdem não apenas trabalhadores, mas também conhecimento acumulado, liderança científica e capacidade de formar novas equipas.

A fuga de especialistas está ligada à ausência de carreiras estáveis, financiamento irregular, equipamentos insuficientes, baixa remuneração e poucas oportunidades para liderar projectos. Redes científicas internacionais podem ampliar a formação e o intercâmbio, mas tornam-se problemáticas quando os investigadores africanos participam apenas na recolha de amostras ou dados, enquanto a análise, a propriedade intelectual e as decisões principais permanecem fora do continente.

A estratégia da OMS para investigação em saúde associa sistemas nacionais activos de investigação à aceleração dos objectivos sanitários. Isso exige instituições nacionais capazes de definir prioridades, gerir estudos, aplicar os resultados e conservar profissionais qualificados.

Para reduzir a perda de quadros, o investimento precisa de abranger:

Produção de vacinas e medicamentos exige ligação com a indústria

Samo Gudo relacionou directamente a investigação científica com a capacidade de desenvolver medicamentos, tratamentos e vacinas. A investigação isolada, sem indústria, regulação e financiamento para produção, não elimina a dependência. Um estudo pode identificar um candidato promissor, mas a transformação desse resultado num produto exige ensaios clínicos, controlo de qualidade, licenciamento, fábricas e cadeias de distribuição.

“Temos de começar a identificar as nossas próprias soluções.”

(Eduardo Samo Gudo, à margem do V Simpósio em Saúde Global, em Maputo.)

A Africa CDC estima que o continente continue dependente de importações para mais de 70% das suas necessidades farmacêuticas. A organização defende a expansão da investigação, do desenvolvimento e da produção local de vacinas, diagnósticos, terapias e outros produtos essenciais.

A União Africana estabeleceu a meta de produzir no continente 60% das vacinas necessárias até 2040. A iniciativa foi formalizada por meio da Parceria para a Produção de Vacinas em África, lançada em 2021.

O cumprimento dessa meta depende de uma cadeia completa:

  1. identificação das doenças prioritárias e dos agentes patogénicos;
  2. investigação laboratorial e desenvolvimento tecnológico;
  3. ensaios pré-clínicos e clínicos;
  4. avaliação por autoridades reguladoras;
  5. produção industrial com controlo de qualidade;
  6. compras públicas e distribuição regional.

Sem procura previsível, fabricantes africanos podem não conseguir manter linhas de produção. Por isso, a política industrial precisa de estar ligada às compras dos governos, aos programas de vacinação, aos mecanismos regionais de aquisição e à harmonização regulatória.

Ébola expõe o custo do atraso científico

No encontro de Maputo, Samo Gudo citou os surtos de Ébola como exemplo do risco provocado pela falta de capacidade para desenvolver rapidamente tecnologias sanitárias. Segundo o responsável, o surgimento de uma variante sem vacina disponível obriga o continente a esperar pelo desenvolvimento e pelos testes conduzidos no exterior. Entre o início da testagem, a demonstração de eficácia e a aprovação, o processo pode prolongar-se durante vários meses.

Pedro Alonso, antigo director do Programa Global de Malária da OMS, também participou no debate. Ele recordou sucessivos surtos de Ébola e afirmou que a preparação para doenças emergentes exige investimento antecipado, não apenas na investigação, mas também no envolvimento da indústria.

“Estamos sempre atrasados.”

(Pedro Alonso, antigo director do Programa Global de Malária da OMS, durante o simpósio da Fundação Manhiça.)

A lógica apresentada pelos especialistas é preventiva: laboratórios, equipas e plataformas tecnológicas devem existir antes de uma crise. Criar estruturas apenas depois do aparecimento de uma epidemia aumenta o tempo necessário para desenvolver diagnósticos, seleccionar candidatos a medicamentos e iniciar ensaios clínicos.

Cooperação internacional não substitui capacidade nacional

A cooperação científica continua necessária para partilha de conhecimentos, financiamento de estudos multicêntricos, formação de investigadores e acesso a tecnologias avançadas. Samo Gudo não defendeu o isolamento das instituições africanas, mas uma relação em que os países do continente tenham capacidade para participar na definição das prioridades e produzir soluções.

O ministro da Saúde de Moçambique, Ussene Isse, já tinha defendido em 2025 reformas nas agendas globais de saúde para que a cooperação multilateral fortaleça os sistemas nacionais. Na reunião anual da Associação Internacional dos Institutos Nacionais de Saúde Pública, realizada em Maputo, o governante apontou os institutos nacionais como pilares para enfrentar ameaças sanitárias e informou que o INS havia sido escolhido como centro de excelência da Africa CDC para a formação de profissionais dos países africanos de língua portuguesa.

O modelo proposto coloca a cooperação externa ao serviço de estruturas permanentes. Isso significa que equipamentos, dados, formação e propriedade intelectual devem fortalecer instituições locais, em vez de desaparecerem quando termina um projecto financiado por parceiros.

A advertência feita em Maputo concentra-se numa escolha de política pública: financiar ciência antes das epidemias ou continuar a adquirir soluções depois de elas serem desenvolvidas no exterior. Para Samo Gudo, a primeira alternativa permite preparar, prevenir e responder; a segunda perpetua a espera por testes, medicamentos e vacinas produzidos por países com maior capacidade tecnológica.

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