A internet nas escolas Moçambique deverá ser reforçada por um investimento indicativo de 20 milhões de dólares destinado à conectividade de banda larga, equipamentos informáticos, soluções de energia sustentável e desenvolvimento de competências digitais no sector da educação. A verba integra o Projecto de Aceleração Digital de Moçambique, financiado pelo Banco Mundial, e deverá priorizar escolas públicas com maiores limitações de acesso tecnológico, informa a redacção Infromoz com base no plano oficial do projecto publicado pelo Banco Mundial.
O programa não se limita à instalação de uma ligação à internet. Os documentos oficiais preveem uma combinação de banda larga, alimentação eléctrica sustentável, computadores e laboratórios de tecnologias de informação para actividades de ensino e aprendizagem. Em paralelo, o projecto Internet para Todos prevê ligar escolas secundárias e técnico-profissionais em todas as províncias, depois de mais de uma centena de estabelecimentos terem recebido internet por satélite no primeiro trimestre de 2025.
O que cobre o investimento de 20 milhões de dólares
Os 20 milhões de dólares correspondem à subcomponente dedicada à adopção de tecnologia digital e ao desenvolvimento de competências no sector da educação. Essa rubrica faz parte de um projecto mais amplo, avaliado em 200 milhões de dólares, que inclui intervenções em conectividade rural, serviços digitais do Estado, governação de dados, cibersegurança e inclusão digital.
O plano estabelece que escolas públicas carenciadas deverão receber conectividade de banda larga associada a infra-estruturas capazes de manter os equipamentos em funcionamento. O desenho reconhece que instalar computadores sem uma fonte estável de energia ou fornecer internet sem equipamentos adequados não cria, por si só, condições para o ensino digital.
As principais intervenções previstas são:
- ligação das escolas à internet de banda larga;
- instalação ou reforço de soluções de energia sustentável;
- fornecimento de equipamentos de tecnologias de informação;
- criação de laboratórios informáticos para ensino e aprendizagem;
- capacitação digital de alunos, professores e outros profissionais da educação;
- apoio à expansão da Rede de Pesquisa e Educação de Moçambique, a MoRENET.
O valor de 20 milhões de dólares é uma alocação indicativa para esta componente específica e não representa todo o orçamento do Projecto de Aceleração Digital de Moçambique. O orçamento global distribui 95 milhões de dólares para inclusão e acesso digital, outros 95 milhões para as bases da transformação digital acelerada e 10 milhões para gestão, coordenação institucional e participação dos cidadãos.
O modelo referido no documento oficial aproveita experiências de “salas de aula inteligentes” aplicadas noutros países, incluindo o Ruanda. A proposta combina equipamentos, conectividade e espaço físico preparado para utilização pedagógica, em vez de tratar a internet apenas como um serviço administrativo destinado às direcções escolares.
Quais escolas serão ligadas à internet
O Governo e o Instituto Nacional das Comunicações de Moçambique indicaram que a expansão abrange escolas secundárias e instituições técnico-profissionais localizadas em todas as províncias do país. O INCM informou oficialmente que mais de 100 escolas desses níveis tinham sido conectadas por satélite durante o primeiro trimestre de 2025.
A meta divulgada no lançamento do projecto era alcançar 310 escolas secundárias e técnico-profissionais. O comunicado oficial não apresenta, porém, uma lista nominal completa das 310 instituições. A selecção foi descrita por nível de ensino, distribuição territorial e necessidade de inclusão digital, com incidência especial nas zonas rurais.
Isso significa que o universo anunciado inclui:
- escolas secundárias públicas;
- instituições de ensino técnico-profissional;
- estabelecimentos situados nas 11 províncias;
- escolas em áreas rurais ou com acesso limitado à internet;
- instituições onde a conectividade pode servir alunos, professores e comunidades próximas.
A Escola Secundária da Cidade Alta, em Nacala Porto, foi apresentada como um dos exemplos concretos. Durante o lançamento do projecto, a instituição recebeu uma sala de informática equipada com 30 computadores, internet Wi-Fi gratuita e capacidade de ligação para até 150 dispositivos. A estrutura permite o uso dos computadores instalados e também dos telemóveis e outros equipamentos da comunidade escolar.
“O projecto beneficiará não só a comunidade estudantil, mas também indirectamente todas comunidades na promoção da cultura, dos valores, da paz e da soberania. Irá, igualmente, contribuir para inclusão digital e acesso universal” (Daniel Chapo, Presidente da República, durante o lançamento do projecto Internet para Todos em Nacala Porto, em Março de 2025).
O anúncio feito em Nacala indicava a intenção de instalar o serviço em todas as províncias, sem concentrar as ligações apenas em Maputo ou nas principais cidades. A prioridade declarada era ampliar o acesso à banda larga em localidades onde famílias, estudantes e professores enfrentam custos elevados ou ausência de cobertura adequada.

Quantas escolas já dispõem de salas de informática e internet
Os números divulgados por diferentes programas públicos devem ser lidos de acordo com o período e o tipo de intervenção. O projecto Internet para Todos informou que mais de 100 escolas tinham recebido internet por satélite no primeiro trimestre de 2025 e estabeleceu uma meta de 310 escolas secundárias e técnico-profissionais.
Em Maio de 2026, dados apresentados pelo Governo durante uma sessão parlamentar indicaram que 352 escolas já tinham sido equipadas com salas de informática e acesso à internet no quadro das iniciativas de aprendizagem online. Segundo a informação divulgada, esses espaços beneficiam tanto a comunidade escolar como populações residentes nas áreas circundantes.
Os dois números não devem ser somados automaticamente. As 310 escolas correspondem à meta anunciada para uma linha específica de expansão da conectividade, enquanto as 352 instituições referem-se ao conjunto de escolas equipadas no âmbito de programas de aprendizagem online e digitalização do ensino.
O balanço apresentado pelo Executivo acrescentou que estão a ser disponibilizadas plataformas de conteúdos electrónicos e promovidas acções de formação digital para professores, tutores e gestores de programas de ensino à distância. Também foram entregues 14 centros de apoio à aprendizagem destinados ao ensino não presencial.
Para o aluno, a mudança prevista não é apenas passar a ter Wi-Fi no recinto escolar, mas poder utilizar computadores, plataformas educativas e materiais digitais durante as aulas ou em actividades orientadas.
O que muda para os alunos
A principal alteração será a possibilidade de aceder a recursos de aprendizagem que dependem de conectividade, incluindo bibliotecas digitais, plataformas de conteúdos electrónicos, materiais audiovisuais, exercícios interactivos e ferramentas de pesquisa.
Nas escolas que receberem laboratórios completos, os alunos poderão utilizar computadores em sessões organizadas pelos professores. Nas instituições com redes Wi-Fi dimensionadas para vários equipamentos, também será possível aceder aos recursos através de telemóveis, tablets ou computadores portáteis, de acordo com as regras definidas por cada escola.
O projecto oficial identifica como resultado esperado o aumento do número de estudantes que passam a beneficiar de acesso novo ou melhorado à aprendizagem por meio de tecnologias digitais.
As mudanças previstas para os alunos concentram-se em três áreas:
- Acesso ao conhecimento: consulta de conteúdos que não estão disponíveis nos manuais físicos ou nas bibliotecas locais.
- Competências digitais: aprendizagem do uso de computadores, plataformas, ferramentas de comunicação e serviços online.
- Ensino técnico e preparação profissional: utilização de programas e equipamentos relacionados com áreas técnicas, científicas e administrativas.
A conectividade também deverá apoiar o ensino à distância, sobretudo quando a localização geográfica, as condições climáticas ou outros factores dificultam a presença regular de estudantes e formadores. O Governo afirmou que a política nacional nessa área combina soluções digitais e outros meios para alcançar alunos com diferentes condições económicas e territoriais.
O que muda para professores e gestores escolares
Os professores passam a dispor de novas formas de preparar aulas, actualizar conteúdos, pesquisar materiais e acompanhar programas de capacitação. A utilização pedagógica dependerá, contudo, da formação dos profissionais e da disponibilidade regular dos equipamentos.
O plano governamental prevê o reforço das competências digitais de professores, tutores e gestores ligados ao ensino à distância. Esse ponto é central porque a presença de computadores numa escola não garante a sua integração no currículo sem profissionais preparados para orientar as actividades.
Os laboratórios informáticos também podem ser utilizados na elaboração de testes, produção de materiais, gestão de dados escolares e comunicação entre instituições. No ensino técnico-profissional, a conectividade pode facilitar o acesso a conteúdos actualizados e a ferramentas utilizadas em sectores como informática, administração, electrónica, agricultura, logística e serviços.
O Projecto de Aceleração Digital inclui ainda apoio financeiro à MoRENET, rede destinada a conectar instituições de ensino superior, investigação e formação técnico-profissional. O documento prevê a possibilidade de estender fibra óptica a instituições situadas perto das redes já existentes.
Internet, energia e equipamentos no mesmo projecto
Um dos pontos mais relevantes do programa é a inclusão de soluções de energia sustentável. Muitas escolas localizadas fora dos grandes centros enfrentam limitações de fornecimento eléctrico ou não possuem uma ligação estável capaz de alimentar computadores, routers e outros equipamentos durante todo o período lectivo.
Por essa razão, a subcomponente educacional associa a banda larga à energia e aos equipamentos. O objectivo é criar uma instalação funcional, em que o serviço de internet possa ser utilizado de forma regular e não apenas em demonstrações ou ocasiões especiais.
A estrutura prevista inclui:
- fonte de energia adequada ao funcionamento dos equipamentos;
- computadores ou outros dispositivos para alunos e docentes;
- rede interna e acesso de banda larga;
- laboratório ou sala preparada;
- manutenção e gestão dos recursos;
- formação dos utilizadores.
O plano não apresenta um número uniforme de computadores para todas as escolas. O exemplo divulgado na Escola Secundária da Cidade Alta envolveu 30 máquinas, mas a quantidade poderá variar conforme a dimensão da instituição, o número de estudantes e o modelo de instalação escolhido.
Conteúdos digitais e aprendizagem online
A conectividade será acompanhada pela disponibilização de plataformas de conteúdos electrónicos. A informação apresentada pelo Governo refere materiais destinados ao ensino à distância e à aprendizagem online, bem como formação de professores e gestores responsáveis pela utilização desses sistemas.
Essas plataformas podem permitir que uma escola aceda a materiais produzidos centralmente, reduzindo a dependência exclusiva de documentos impressos. Também facilitam a actualização de conteúdos sem a necessidade de substituir fisicamente todos os recursos já distribuídos.
O programa oficial não divulgou uma lista completa de disciplinas, plataformas ou fornecedores de conteúdos que serão usados em cada escola. A informação confirmada concentra-se na criação de condições técnicas, na expansão dos conteúdos electrónicos e no desenvolvimento das competências necessárias para utilizar esses recursos.
O impacto imediato deverá ser mais visível nas escolas que já possuem professores capacitados, equipamentos funcionais e horários reservados para actividades nos laboratórios.
A expansão da internet para zonas rurais
A inclusão das escolas está ligada a uma estratégia mais ampla de expansão das telecomunicações. O projecto Internet para Todos foi apresentado como uma resposta às dificuldades de cobertura e aos custos enfrentados por populações rurais.
O INCM indicou que a iniciativa pretende expandir a fibra óptica, promover a literacia digital, apoiar a utilização de serviços tecnológicos na educação e na saúde e aumentar o número de provedores que operam fora dos principais centros urbanos.
A abertura de redes escolares à comunidade pode ampliar o alcance do investimento. No anúncio oficial, o Governo indicou que a conectividade poderá beneficiar indirectamente residentes das zonas próximas, especialmente quando a escola funciona como um dos poucos pontos públicos com energia, computadores e acesso à internet.
“Queremos que um estudante em Mueda tenha as mesmas oportunidades de acesso ao conhecimento que um estudante na Cidade de Maputo” (Daniel Chapo, durante a abertura da 5.ª Conferência Nacional das Comunicações, em Maputo, em Junho de 2026).
A declaração foi feita durante a apresentação de um conjunto mais amplo de medidas de transformação digital, que inclui expansão das redes móveis, modernização dos serviços públicos e reforço da cobertura nas capitais provinciais, distritos e postos administrativos.
Relação entre os US$ 20 milhões e o projecto Internet para Todos
O investimento de 20 milhões de dólares na educação pertence ao Projecto de Aceleração Digital de Moçambique. Já o Internet para Todos é uma iniciativa nacional mais ampla de expansão da conectividade, com metas que abrangem escolas, comunidades rurais e infra-estruturas de telecomunicações.
As duas linhas convergem na ligação de escolas, mas não são exactamente o mesmo orçamento. O financiamento educacional de 20 milhões cobre banda larga, energia, laboratórios e competências digitais. O Internet para Todos inclui também estações de base, expansão de redes, fibra óptica, cobertura territorial e acesso comunitário.
Durante a Conferência Nacional das Comunicações, foi referido um investimento adicional de 50 milhões de dólares para instalar 60 estações de base e expandir a rede para mais de 300 localidades, com uma população potencialmente abrangida de cerca de 4,4 milhões de pessoas.
Essa infra-estrutura de telecomunicações poderá criar as condições para que escolas situadas em distritos actualmente mal servidos tenham acesso a ligações mais estáveis. Ao mesmo tempo, a componente educacional financia os equipamentos e os espaços necessários para que a conexão seja utilizada no processo de ensino.
Como será feita a selecção das escolas
Os documentos consultados identificam as categorias prioritárias, mas não publicam uma relação nacional completa com o nome de cada estabelecimento. As referências oficiais apontam para escolas públicas carenciadas, instituições secundárias e técnico-profissionais, estabelecimentos rurais e escolas próximas de redes que possam receber fibra ou conexão por satélite.
A distribuição deverá considerar:
- ausência ou baixa qualidade da conectividade;
- localização em áreas rurais;
- disponibilidade ou necessidade de energia sustentável;
- número de alunos e professores;
- proximidade de infra-estruturas de telecomunicações;
- possibilidade de beneficiar comunidades vizinhas;
- integração com programas de ensino digital já existentes.
O uso de satélite permite chegar a locais onde a instalação imediata de fibra óptica é mais difícil. Nas áreas próximas de redes existentes, o projecto admite a ligação por fibra, incluindo instituições de ensino superior e técnico-profissional apoiadas pela MoRENET.
Segurança digital também entra na agenda escolar
A expansão do acesso à internet é acompanhada por iniciativas de literacia em privacidade, protecção de dados e utilização responsável das tecnologias. Em Junho de 2026, o Instituto Nacional de Tecnologias de Informação e Comunicação e a Vodacom anunciaram um programa destinado a estudantes de escolas moçambicanas.
A iniciativa prevê disseminar conhecimentos sobre segurança digital, protecção de informações pessoais e comportamentos responsáveis online. Esse trabalho complementa a instalação da infra-estrutura, sobretudo entre alunos que começam a utilizar regularmente plataformas, redes, contas digitais e serviços de comunicação.
“A iniciativa visa promover a educação digital junto dos estudantes moçambicanos, através da disseminação de conhecimentos fundamentais sobre privacidade, segurança digital e utilização responsável das tecnologias de informação e comunicação” (INTIC, comunicado sobre o memorando com a Vodacom, Junho de 2026).
A formação em segurança é relevante para o uso dos laboratórios e das redes Wi-Fi, porque as escolas terão de definir regras de acesso, proteger equipamentos, gerir contas e orientar estudantes sobre riscos como fraude, roubo de palavras-passe e exposição indevida de dados.
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