infromoz.com

FMI em Moçambique: missão de setembro pode definir novo programa de financiamento em 2026

Missão do FMI em Maputo, de 9 a 18 de setembro de 2026, avalia condições para novo programa ECF. Moçambique liquidou dívida de 701 milhões USD e busca novo acordo de crédito alargado.

Maputo, 9 de Setembro de 2026 — O Governo de Moçambique recebe, a partir de hoje até 18 de Setembro, uma delegação do Fundo Monetário Internacional (FMI) para discussões técnicas com vista à negociação de um potencial Programa ao abrigo da Facilidade de Crédito Alargada (ECF – Extended Credit Facility). Trata-se de um momento crucial para a trajectória económica do país, que nos últimos meses tomou medidas sem precedentes para reforçar a sua credibilidade financeira junto da comunidade internacional.A visita é chefiada por Pablo López Murphy, o mesmo responsável que em Junho deste ano já tinha estado em Maputo para avaliações preliminares, informa a redacção InforMoz

O objectivo central é realizar uma avaliação profunda ao desempenho macroeconómico recente do país, auditar o estado de implementação das reformas em curso e desenhar o futuro da cooperação financeira e técnica entre o Estado e o FMI. Durante os dez dias de missão, a delegação vai manter encontros intensos e estratégicos com vários pelouros governamentais, com destaque para a tutela das Finanças, o Banco de Moçambique, associações do sector privado e o sistema financeiro nacional.

“A visita insere-se no quadro do relacionamento entre o Estado moçambicano e aquela instituição financeira internacional e centrar-se-á na avaliação conjunta de medidas de consolidação fiscal, na identificação de caminhos para reduzir os desequilíbrios macroeconómicos” — Ministério das Finanças de Moçambique

O que ficou para trás: o programa ECF anterior

Para compreender o alcance desta missão, é necessário recuar no tempo1O programa anterior tinha sido aprovado em Maio de 2022, com um financiamento de cerca de 468 milhões de dólares. Até ao seu encerramento, Moçambique havia recebido aproximadamente 343 milhões de dólares, distribuídos por quatro desembolsos. A quinta e a sexta avaliações, que poderiam abrir caminho a novos desembolsos, acabaram por não avançar.

A suspensão do programa, em Abril de 2025, não aconteceu por ruptura, mas sim por opção estratégica. O Presidente moçambicano, Daniel Chapo, disse em junho de 2025 que previa ainda naquele ano assinar um novo programa de apoio com o FMI.

A liquidação da dívida: um gesto de confiança

Um dos capítulos mais marcantes deste percurso ocorreu em Março de 2026. Moçambique liquidou integralmente a sua dívida junto do FMI, no valor de 701,4 milhões de dólares, equivalentes a 514,04 milhões de Direitos de Saque Especiais (SDR), encerrando desta forma todos os pagamentos pendentes e antecipando o calendário de amortizações que se estenderia até 2030.28 A ministra das Finanças, Carla Louveira, explicou que este pagamento antecipado não terá impacto no funcionamento do Orçamento do Estado moçambicano, visto que os recursos utilizados provêm das Reservas Internacionais Líquidas do Banco de Moçambique. A decisão colocou Moçambique numa posição *singular*:  o único país, entre 85 nações listadas, sem obrigações em atraso perante o FMI.

“Mais para o final do ano, se tudo correr bem, iremos assinar um novo programa que permitirá, com a nova visão do Governo, continuar uma excelente relação com o FMI” — Presidente Daniel Chapo, Junho de 2025

Contudo, analistas alertam que os desafios persistem. O Standard Bank admite que a liquidação possa reduzir as reservas cambiais brutas de 4,2 mil milhões de dólares, em Dezembro de 2025, para cerca de 3,5 mil milhões de dólares, o equivalente a aproximadamente cinco meses de importações. O impacto no quotidiano das famílias e no mercado de emprego nacional é uma preocupação constante.

O cenário macroeconómico actual

A missão chega num contexto de fragilidades reais. Segundo Pablo López Murphy, no comunicado emitido após a visita de Junho: “Mozambique is facing a challenging economic situation amid an increasingly difficult global environment. Economic activity is gradually recovering from a contraction in 2025, but growth remains subdued. Inflation has risen recently, although from moderate levels.” Os desequilíbrios fiscais reduziram-se em 2025 em condições de financiamento restritivas, mas as vulnerabilidades fiscais e da dívida persistem.

Os desequilíbrios externos agravaram-se, impulsionados por exportações mais fracas e importações mais elevadas associadas a grandes projectos de investimento, enquanto a escassez persistente de divisas continua a pesar sobre a actividade económica. 

 A dívida total de Moçambique — incluindo Governo e empresas públicas seleccionadas — aumentou 4,7% em 2025, atingindo 1 132 mil milhões de meticais, o equivalente a 79,1% do PIB, face a 74,4% registados no ano anterior.

“Current policies are unsustainable” — Relatório do FMI, Country Report Nº 26/45

O que se espera desta missão?

4 Os trabalhos técnicos decorrem à porta fechada em Maputo. No fim do período de reuniões, espera-se que a missão divulgue as conclusões preliminares, que ditarão o calendário e as condições para a formalização do novo compromisso financeiro bilateral nos próximos meses.

O novo programa, caso venha a ser formalizado, deverá contemplar:

Para o novo ciclo que se inicia em 2026, espera-se que os montantes sejam ajustados à nova visão governamental liderada pelo Presidente Daniel Chapo.

O contexto global agrava o desafio

9 A guerra no Médio Oriente, que fez subir os preços dos combustíveis e fertilizantes, atinge Moçambique num momento em que o crescimento permanece fraco, incluindo devido a choques climáticos recentes, deixando pouca margem de manobra. Os preços dos bens essenciais têm subido de forma constante, e a população mais vulnerável — tanto nas zonas urbanas como rurais — sente os efeitos na *pele e no bolso*.  

O próprio Conselho Executivo do FMI reconheceu, em Fevereiro de 2026, que Moçambique continua a enfrentar um ambiente macroeconómico complexo, marcado por crescimento moderado, vulnerabilidades fiscais e da dívida, e ajuda externa em declínio. Ao mesmo tempo, o país enfrenta necessidades de desenvolvimento prementes, restrições de capacidade e desastres naturais frequentes.

“The purpose of the visit is to take stock of recent economic developments and discuss the best way for the IMF to support Mozambique in the future” — Fonte oficial do FMI, Junho de 2026

Olhar para o futuro: entre a esperança e a prudência

A presença da delegação do FMI em Maputo é, antes de tudo, um sinal positivo. Significa que ambas as partes reconhecem a necessidade de um novo quadro de cooperação. 32O pagamento integral da dívida, realizado em Março de 2026, demonstra disciplina fiscal e compromisso com a estabilidade macroeconómica. Especialistas destacam que a decisão fortalece a credibilidade internacional do país e abre caminho para negociações futuras em condições mais favoráveis.

Todavia, a formalização de um novo programa ECF exigirá concessões de ambos os lados. Moçambique terá de demonstrar avanços concretos nas reformas estruturais, na transparência das finanças públicas e na governação — áreas onde o histórico recente apresenta luzes e sombras. O FMI, por seu lado, deverá calibrar as suas condições à realidade de um país que, apesar das enormes riquezas naturais, continua a ser uma das nações mais pobres do mundo.

O debate sobre a economia nacional e o impacto destas negociações no emprego e no custo de vida dos moçambicanos está apenas a começar. Os próximos dez dias em Maputo podem muito bem definir o rumo económico do país para os anos vindouros.

FAQ — Perguntas Frequentes

1. O que é a Facilidade de Crédito Alargada (ECF) do FMI? É um instrumento financeiro do FMI destinado a apoiar países de baixa renda com financiamento concessional, ou seja, em condições mais favoráveis do que o mercado, para corrigir desequilíbrios na balança de pagamentos e promover reformas económicas.

2. Quanto tempo dura a missão do FMI em Moçambique? A missão vai decorrer até 18 de Setembro, em Maputo. São dez dias de reuniões técnicas com diversas entidades governamentais, o Banco de Moçambique e o sector privado.

3. Moçambique ainda tem dívida com o FMI? Não. O Governo moçambicano liquidou integralmente, em Março de 2026, a sua dívida pendente de 515,04 milhões de Direitos Especiais de Saque (equivalentes a 630,1 milhões de dólares) junto do FMI.

4. Qual era o valor do programa anterior? Ao abrigo do último programa ECF, o FMI tinha aprovado em 2022 um financiamento a rondar 468 milhões de dólares para Moçambique.

5. Quando poderá ser assinado o novo programa? No fim do período de reuniões, espera-se que a missão divulgue as conclusões preliminares, que ditarão o calendário e as condições para a formalização do novo compromisso nos próximos meses. Não há data confirmada, mas o Governo moçambicano tem demonstrado intenção de concluir o processo ainda em 2026.

Puedes leer sobre esto y otra información útil en nuestro sitio web. También te recomendamos leer: Lei do referendo em Moçambique: quem poderia convocar uma consulta popular e quais regras estão em debate

Sair da versão mobile