A primeira consulta pré-natal em Moçambique deve ser feita cedo na gravidez, preferencialmente ainda no primeiro trimestre. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que o primeiro contacto com os serviços de saúde aconteça até às 12 semanas de gestação e que o acompanhamento prossiga ao longo da gravidez. A Infromoz informa, reuniu os principais procedimentos previstos para este primeiro atendimento.
A primeira consulta não serve apenas para confirmar a gravidez. É neste atendimento que começa o registo clínico da gestante, são avaliados antecedentes obstétricos e condições de saúde, mede-se a tensão arterial e o peso, são solicitados ou realizados exames e é aberta a ficha pré-natal ou a caderneta de saúde da mulher. Esse documento acompanha a grávida durante as consultas e concentra informações que serão utilizadas também na maternidade.
Quando marcar a primeira consulta pré-natal
A orientação da OMS é clara: o primeiro contacto pré-natal deve ocorrer durante as primeiras 12 semanas de gravidez. Depois desse atendimento inicial, o modelo recomendado pela organização prevê contactos às 20, 26, 30, 34, 36, 38 e 40 semanas, totalizando pelo menos oito contactos durante uma gravidez sem complicações.
O objectivo é criar oportunidades sucessivas para avaliar a saúde da mulher e o desenvolvimento da gravidez, identificar problemas precocemente e aplicar medidas preventivas.
“More and better quality contacts between all women and their health providers throughout pregnancy will facilitate the uptake of preventive measures.”
— Dr. Anthony Costello, então Director de Saúde Materna, Neonatal, Infantil e do Adolescente da OMS, ao apresentar as recomendações de cuidados pré-natais.
Na prática, não é necessário esperar que a barriga cresça ou que apareçam sintomas para procurar a unidade sanitária. Confirmada ou suspeitada a gravidez, o acompanhamento deve começar no primeiro trimestre.
O que acontece na primeira consulta
O primeiro atendimento é normalmente mais completo porque estabelece a informação de base para acompanhar o restante da gestação.
As orientações utilizadas nos serviços de saúde incluem recolha da história obstétrica e clínica, avaliação da idade gestacional, cálculo da data provável do parto, medição da tensão arterial, peso e outros parâmetros necessários ao seguimento. A ficha utilizada pelo Ministério da Saúde de Moçambique contém campos próprios para estas informações.
Entre os pontos avaliados estão:
- data da última menstruação e estimativa da idade gestacional;
- gravidezes e partos anteriores;
- antecedentes médicos e cirúrgicos;
- tensão arterial, peso e avaliação nutricional;
- doenças ou tratamentos em curso;
- factores obstétricos que possam exigir acompanhamento específico.
A OMS recomenda medir tensão arterial e peso nos contactos pré-natais. A avaliação permite, entre outros objectivos, acompanhar alterações maternas ao longo da gravidez e detectar situações que precisem de investigação ou encaminhamento.

Quais exames podem ser pedidos no pré-natal em Moçambique
Os registos utilizados pelo sistema de saúde moçambicano mostram que o acompanhamento pré-natal inclui exames laboratoriais e rastreios específicos.
Um estudo realizado em Nampula e publicado em 2025 analisou exactamente os procedimentos previstos pelo Ministério da Saúde para o pré-natal. Entre os itens avaliados estavam exames de HIV, sífilis, urina e hemograma, além da medição da tensão arterial e do peso e das medidas preventivas contra tétano e malária.
Na primeira fase do pré-natal podem ser incluídos:
- teste de HIV;
- teste de sífilis;
- análise de urina;
- hemograma ou avaliação de hemoglobina;
- determinação do grupo sanguíneo e factor Rh, conforme disponibilidade e protocolo;
- avaliação de proteinúria e glicose na urina;
- outros exames definidos pelo profissional segundo a situação clínica.
A OMS também recomenda que HIV, sífilis e hepatite B sejam rastreados pelo menos uma vez durante a gravidez e, de preferência, o mais cedo possível.
Nem todos os exames precisam necessariamente de ser realizados no mesmo dia. Parte deles pode ser solicitada durante a consulta e realizada posteriormente, conforme a capacidade da unidade sanitária e o seguimento indicado pelo profissional.
HIV e sífilis têm lugar central no rastreio pré-natal
O rastreio de infecções transmissíveis da mãe para o bebé é uma das componentes estabelecidas do pré-natal.
Nos registos utilizados pelo Ministério da Saúde, existem campos específicos para teste de HIV, estado serológico, teste de sífilis e tratamento quando indicado. Também existem orientações para repetir ou completar a testagem em determinados momentos da gravidez ou na maternidade.
A OMS recomenda que todas as grávidas sejam testadas para HIV e sífilis o mais cedo possível durante a gestação. Em relação à hepatite B, a organização também recomenda rastreio por HBsAg durante a gravidez.
Esses exames permitem identificar infecções para as quais existem intervenções capazes de reduzir riscos para a mulher e para o bebé.
Prevenção da malária durante a gravidez
A malária é outra componente relevante dos cuidados pré-natais em Moçambique.
O livro de registo da consulta pré-natal do Ministério da Saúde contém campos específicos para tratamento preventivo intermitente da malária e distribuição de rede mosquiteira. Pesquisas realizadas no país também utilizam estes indicadores para avaliar a cobertura dos cuidados durante a gravidez.
A OMS recomenda tratamento preventivo intermitente da malária na gravidez em áreas de transmissão, com início no segundo trimestre, segundo as normas aplicáveis.
No estudo realizado em Nampula, 90,3% das 339 mulheres avaliadas tinham registo de profilaxia contra a malária na sua ficha pré-natal. O mesmo estudo encontrou registo do teste de HIV em 97,9% das cadernetas analisadas.
A ficha pré-natal deve acompanhar a grávida
Depois da primeira consulta, a mulher recebe a ficha pré-natal ou caderneta de saúde da mulher, documento utilizado para assegurar a continuidade das informações entre consultas.
Em Moçambique, são registados nesse documento dados sociodemográficos, antecedentes reprodutivos, informações da gravidez, resultados de exames, medidas preventivas, informações sobre o parto, pós-parto e planeamento familiar.
A ficha deve ser levada às consultas seguintes.
Ela pode conter, entre outros dados:
- datas das consultas;
- idade gestacional;
- tensão arterial e peso;
- resultados de HIV, sífilis e outros exames;
- profilaxia da malária;
- vacinação;
- tratamentos realizados;
- previsão do parto;
- observações clínicas importantes.
A importância prática desse documento aparece também nos procedimentos do próprio sistema sanitário. Nas orientações nacionais para cuidados pós-parto, por exemplo, os profissionais são instruídos a solicitar a ficha pré-natal da mãe durante a avaliação do recém-nascido.

O estudo de Nampula mostrou falhas nos registos
Dados publicados em 2025 permitem observar como estas informações aparecem na prática.
O estudo analisou 339 mulheres de Nampula que tinham consigo a caderneta ou ficha pré-natal. Entre elas, 50,7% apresentavam registo de quatro ou mais consultas, 57,8% tinham registo do teste de sífilis e 64,3% tinham medição da tensão arterial documentada.
O teste de HIV aparecia em 97,9% das fichas, o peso em 96,5% e a profilaxia contra a malária em 90,3%. Já o exame de urina estava registado em 44,3% e o hemograma em 13,3%.
Os autores chamaram atenção para a necessidade de melhorar o preenchimento do documento e a continuidade das informações.
Ter a ficha disponível durante a gravidez e no momento do parto permite que a equipa consulte rapidamente resultados e antecedentes registados ao longo do pré-natal.
O que levar à maternidade
Entre os documentos directamente ligados à assistência materna, a ficha pré-natal ou caderneta pré-natal é o elemento cuja utilização está claramente documentada nas normas e procedimentos moçambicanos.
O próprio Instituto Nacional de Segurança Social de Moçambique inclui a ficha ou caderneta pré-natal entre os documentos relacionados com o processo de subsídio de maternidade.
Para a entrada na maternidade, a grávida deve conservar consigo a documentação produzida durante o acompanhamento, sobretudo:
- ficha ou caderneta pré-natal;
- resultados de exames que tenham sido entregues à própria grávida;
- documentos ou indicações fornecidos pela unidade sanitária onde realiza o acompanhamento.
Os restantes artigos pessoais exigidos para internamento podem variar entre unidades sanitárias. A lista prática deve, por isso, ser confirmada durante as consultas finais na maternidade ou unidade onde está previsto o parto.
A preparação para o parto começa ainda durante o pré-natal
As recomendações internacionais incluem preparação para o parto e capacidade de resposta a complicações entre os temas que devem ser discutidos durante o acompanhamento. A partir dos contactos pré-natais, a mulher deve receber informação sobre o local do parto, sinais de perigo, cuidados durante a gravidez e organização do atendimento quando o trabalho de parto começar.
A importância de aproximar a assistência das grávidas aparece também nas intervenções realizadas em Moçambique. Em 2019, durante a entrega de uma clínica preparada para funcionar como maternidade em Inhajou, no distrito de Búzi, a Direcção Provincial de Saúde de Sofala destacou que algumas mulheres tinham de percorrer 18 quilómetros para chegar à unidade sanitária mais próxima.
“Esta clínica vai funcionar como Maternidade e aliviará o sofrimento da população.”
— Aluísio Gonzaga Pio, então Chefe do Departamento de Planeamento e Cooperação da Direcção Provincial de Saúde de Sofala, em Novembro de 2019.
A distância até aos serviços continua a ser um factor concreto na organização dos cuidados maternos em várias zonas do país. Por isso, as consultas também servem para definir antecipadamente onde a mulher será atendida quando entrar em trabalho de parto.
O calendário não termina na primeira consulta
A primeira consulta inicia um acompanhamento que deve continuar durante toda a gravidez.
A OMS recomenda oito contactos numa gravidez sem complicações: primeiro até às 12 semanas e, posteriormente, por volta das 20, 26, 30, 34, 36, 38 e 40 semanas. O calendário pode ser ajustado quando existe uma necessidade clínica específica.
“Pregnancy should be a positive experience for all women and they should receive care that respects their dignity.”
— Dr. Ian Askew, então Director de Saúde Reprodutiva e Investigação da OMS, ao apresentar as recomendações internacionais de cuidados pré-natais.
Ao longo desses contactos são actualizados os registos da ficha pré-natal, repetidas avaliações clínicas, acompanhados o crescimento fetal e o estado da mãe e organizadas as intervenções necessárias para o parto.
Em Moçambique, portanto, o passo central depois de descobrir a gravidez é procurar uma unidade sanitária ainda durante o primeiro trimestre, iniciar a consulta pré-natal, realizar os exames solicitados e conservar a ficha pré-natal durante toda a gestação. É esse documento que reúne o histórico do acompanhamento e acompanha a mulher até à maternidade.
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