Banco Mundial prepara programa de até 25 milhões de dólares para ampliar o acesso a dispositivos digitais em Moçambique, com prioridade para mulheres, jovens e famílias vulneráveis.
Banco Mundial prepara programa de até 25 milhões de dólares para ampliar o acesso a dispositivos digitais em Moçambique, com prioridade para mulheres, jovens e famílias vulneráveis.

O acesso a dispositivos digitais em Moçambique deverá receber um novo mecanismo de financiamento apoiado pelo Banco Mundial, com uma tranche inicial de cinco milhões de dólares e possibilidade de expansão até 25 milhões. O programa, liderado pelo Governo moçambicano, pretende beneficiar mais de 300 mil pessoas, sobretudo mulheres e jovens, segundo informações apresentadas na 5.ª Conferência Nacional das Comunicações — informa a redacção do InforMoz, com base no Diário Económico.

A iniciativa deverá apoiar directamente o programa governamental “Internet para Todos” e responder a uma das principais barreiras à inclusão digital no País: o preço dos telemóveis, computadores portáteis, tablets e outros equipamentos compatíveis com Internet de banda larga. Apesar da expansão da cobertura móvel, uma grande parte da população continua sem utilizar a Internet por não conseguir comprar um equipamento adequado.

Programa começará com cinco milhões de dólares

O anúncio foi feito por Anna-Elisabeth Costafrolaz, representante do Banco Mundial, durante o painel “Dispositivos Terminais no Ecossistema Digital: Regulação, Inclusão e Sustentabilidade”, realizado em 23 de Junho, em Maputo.

Segundo a responsável, o financiamento será disponibilizado de forma faseada. A primeira tranche terá um valor de cinco milhões de dólares, enquanto o montante global poderá chegar a 25 milhões, consoante a execução e a expansão da iniciativa.

“O programa terá uma tranche inicial de 5 milhões de dólares, mas deverá escalar até 25 milhões de dólares, com foco claro em mulheres e jovens”, declarou Costafrolaz durante a conferência.

Os principais dados apresentados sobre a iniciativa são:

  • financiamento inicial de cinco milhões de dólares;
  • possibilidade de mobilização de até 25 milhões de dólares;
  • mais de 300 mil potenciais beneficiários;
  • prioridade para mulheres e jovens;
  • apoio ao programa “Internet para Todos”;
  • participação de operadores e parceiros privados na implementação.

O mecanismo deverá aproveitar redes de distribuição, financiamento e assistência já existentes no sector privado. A orientação apresentada pelo Banco Mundial é evitar que a intervenção pública substitua empresas ou altere artificialmente as condições de concorrência no mercado de equipamentos.

“O programa de dispositivos não deve distorcer o mercado. Deve, em vez disso, aproveitar as redes e a capacidade dos parceiros privados para eficiência e escala”, afirmou a representante da instituição.

Preço dos equipamentos limita utilização da Internet

A criação do programa parte da diferença entre a cobertura das redes móveis e a utilização efectiva da Internet. De acordo com os dados apresentados na conferência, a maioria dos moçambicanos já reside em áreas cobertas por redes móveis, mas apenas cerca de um quarto da população utiliza efectivamente a Internet.

“Moçambique fez progressos reais nessa área. O problema mudou. Hoje, a vasta maioria dos moçambicanos vive dentro da cobertura móvel, mas apenas cerca de um quarto usa efectivamente a Internet”, explicou Costafrolaz.

Segundo a representante, essa diferença tornou-se o principal desafio da inclusão digital em 2026. A disponibilidade do sinal deixa de ser suficiente quando os consumidores não possuem smartphones, computadores ou tablets capazes de utilizar os serviços oferecidos pelas redes.

Entre os 40% mais pobres da população moçambicana, somente 18% possuem um telefone com acesso à Internet, segundo os números apresentados pelo Banco Mundial. O smartphone mais barato com capacidade de ligação à banda larga custa o equivalente a 154% do rendimento mensal de uma pessoa pertencente a esse grupo económico.

Na prática, a aquisição de um equipamento básico pode exigir um valor superior ao rendimento total recebido durante um mês.

A avaliação preparada pelo Banco Mundial sobre a economia digital de Moçambique já identificava o preço dos dispositivos ligados à Internet como uma barreira central. O documento registava níveis muito baixos de utilização de smartphones e computadores e relacionava essa situação com o baixo poder de compra e com as limitações no acesso à electricidade.

Pagamento faseado e microcrédito estão entre os modelos considerados

O desenho do programa deverá incluir mecanismos que permitam ao beneficiário pagar o equipamento ao longo do tempo. Entre os modelos mencionados durante a conferência estão o pagamento faseado, o microcrédito e os sistemas “pay-as-you-go”, nos quais o utilizador paga pequenas parcelas de acordo com um calendário definido.

Esses instrumentos são considerados importantes para a expansão dos computadores baratos em Moçambique e de smartphones compatíveis com banda larga. No entanto, a representante do Banco Mundial apontou limitações no funcionamento dos modelos comerciais tradicionais.

Muitas famílias de baixo rendimento recebem recursos de maneira informal, não possuem garantias para apresentar às instituições financeiras e não têm histórico de crédito. Esses factores dificultam a aprovação de empréstimos convencionais destinados à compra de equipamentos.

“Estamos a falar de pessoas com rendimentos informais, garantias limitadas e sem histórico de crédito. Estas populações são simplesmente demasiado arriscadas para servir, e isso resulta numa falha de mercado”, declarou Costafrolaz.

O programa apoiado pelo Banco Mundial procura actuar precisamente nessa lacuna. A estrutura deverá combinar recursos públicos, instrumentos financeiros e participação privada para reduzir o risco das operações e permitir que consumidores actualmente excluídos tenham acesso a equipamentos.

Os documentos do Projecto de Aceleração Digital de Moçambique já prevêem um sistema de financiamento de activos destinado à aquisição de smartphones, computadores portáteis, tablets e outros aparelhos ligados à Internet. A meta oficial é permitir que 300 mil beneficiários obtenham um dispositivo compatível com banda larga, incluindo 175 mil mulheres.

Um relatório de acompanhamento do projecto também inclui uma dotação de 20 milhões de dólares para dispositivos digitais destinados à população em geral e a grupos específicos, como estudantes.

Smartphone amplia acesso a serviços essenciais

O Banco Mundial relaciona a posse de um smartphone com uma utilização mais frequente de serviços digitais. Dados do inquérito Global Findex citados durante a conferência indicam que possuir esse tipo de equipamento está associado a uma probabilidade 34 pontos percentuais superior de utilizar plataformas e serviços essenciais.

Entre as utilizações mencionadas estão:

  • aprendizagem e formação online;
  • acesso a serviços públicos digitais;
  • consulta de informações agrícolas;
  • procura de emprego em plataformas digitais;
  • comunicação e realização de operações financeiras.

“Estes não são ganhos marginais, são ganhos transformadores”, afirmou Costafrolaz ao apresentar os dados.

O Projecto de Aceleração Digital de Moçambique, financiado pela Associação Internacional de Desenvolvimento do Banco Mundial, tem um orçamento global de 200 milhões de dólares. O projecto procura aumentar a adopção de tecnologias digitais, ampliar a inclusão e criar bases para a transformação digital no País.

Dos 200 milhões de dólares previstos, 90 milhões estão destinados ao componente de acesso e inclusão digital. Esse bloco inclui 42,5 milhões para conectividade rural e 40 milhões para iniciativas de inclusão digital, nas quais se enquadram os mecanismos de acesso a equipamentos e formação de utilizadores.

Equipamentos deverão cumprir regras de certificação

O aumento da oferta de dispositivos deverá ser acompanhado por regras de qualidade e certificação. O Banco Mundial alertou para os riscos associados à entrada no mercado de equipamentos contrafeitos, não homologados ou incompatíveis com os requisitos técnicos nacionais.

“Dispositivos contrafeitos, não aprovados ou não conformes são uma ameaça directa aos programas de inclusão digital”, afirmou Costafrolaz.

A certificação é necessária para garantir que os aparelhos funcionem nas redes disponíveis, respeitem as normas de segurança e não provoquem interferências nos serviços de telecomunicações. A regulação dos equipamentos terminais integra as competências da Autoridade Reguladora das Comunicações de Moçambique.

A 5.ª Conferência Nacional das Comunicações, organizada pelo INCM, decorreu nos dias 22 e 23 de Junho de 2026, no Centro Internacional de Conferências Joaquim Chissano, em Maputo. O encontro teve como lema “Comunicações como Pilar da Transformação Digital em Moçambique: Conectividade, Inclusão e Resiliência”.

O programa oficial incluiu discussões sobre conectividade, tarifas, utilização do espectro, fraude digital, identidade electrónica, serviços postais e dispositivos terminais. A acessibilidade económica dos serviços e dos equipamentos foi identificada pelo regulador como um dos desafios persistentes da digitalização do País.

Acesso ao equipamento será acompanhado por formação

O programa não deverá limitar-se à entrega ou ao financiamento de telemóveis e computadores. A proposta apresentada prevê que o acesso aos aparelhos seja acompanhado por apoio destinado ao uso efectivo e seguro das tecnologias.

“O acesso ao dispositivo deve ser acompanhado por apoio para uma utilização significativa”, disse a representante do Banco Mundial.

O Projecto de Aceleração Digital estabelece como meta oferecer formação em competências digitais a 30 mil pessoas. Desse grupo, 20 mil deverão concluir os cursos e obter uma certificação, incluindo 12 mil mulheres e 12 mil beneficiários com menos de 25 anos.

A combinação entre equipamento e formação procura assegurar que os beneficiários consigam utilizar os dispositivos para aceder à Internet, comunicar, estudar, procurar emprego e recorrer a serviços públicos e financeiros.

Programa prevê recolha, reparação e gestão de lixo electrónico

A expansão do número de equipamentos deverá incluir medidas de sustentabilidade ambiental. Entre as acções mencionadas estão sistemas de recolha, reparação e gestão de resíduos electrónicos.

O objectivo é impedir que smartphones, baterias, computadores e outros aparelhos sem utilização sejam descartados sem tratamento adequado. A proposta também poderá prolongar a vida útil dos dispositivos por meio da reparação e do reaproveitamento de componentes.

Segundo Costafrolaz, o avanço da inclusão digital dependerá do funcionamento conjunto de três áreas: financiamento acessível, regulação do mercado e sustentabilidade ambiental.

“Acertar isto exige três coisas a trabalhar em conjunto: instrumentos de financiamento que garantam que mais moçambicanos possam aceder a dispositivos, um ambiente regulatório que assegure um mercado bem governado, seguro e competitivo, e quadros de sustentabilidade que garantam que o dividendo digital não venha com custo ambiental”, afirmou.

O programa de dispositivos digitais em Moçambique será executado em fases, começando com cinco milhões de dólares e podendo atingir 25 milhões. A meta anunciada é chegar a mais de 300 mil pessoas, utilizando mecanismos de financiamento adaptados a famílias sem garantias, rendimento formal ou histórico de crédito, com prioridade para mulheres e jovens.

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