Mais de 10 mil moçambicanos regressaram a Gaza após violência xenófoba na África do Sul. Veja o que dizem Migração e ASTROGAZA, quais apoios existem e onde procurar assistência oficial em Moçambique.
Mais de 10 mil moçambicanos regressaram a Gaza após violência xenófoba na África do Sul. Veja o que dizem Migração e ASTROGAZA, quais apoios existem e onde procurar assistência oficial em Moçambique.

Mais de 10 mil moçambicanos regressaram da África do Sul para a província de Gaza durante as últimas duas semanas, segundo uma contagem apresentada pela Associação dos Transportadores de Gaza, a ASTROGAZA. Os regressados fogem de episódios de violência xenófoba e chegam, em muitos casos, sem emprego, dinheiro, alimentos ou apoio familiar, conforme relata a redação de Infromoz.

O número, porém, corresponde aos registos dos transportadores e não a uma contagem consolidada dos Serviços Provinciais de Migração. A instituição afirma que acompanha os movimentos sobretudo nas fronteiras de Ressano Garcia e Ponta do Ouro, mas não dispõe de um registo específico dos cidadãos repatriados para Gaza. Essa diferença entre os dados disponíveis dificulta a identificação das famílias que necessitam de assistência imediata.

ASTROGAZA contabiliza mais de 10 mil chegadas em duas semanas

A ASTROGAZA informou que o fluxo aumentou durante os últimos 12 dias. A associação acompanha os passageiros transportados nas rotas entre a África do Sul e Gaza e afirma ter contabilizado mais de 10 mil pessoas durante aproximadamente duas semanas.

“O número de chegadas continua elevado. Só nestas duas últimas semanas registámos mais de 10 mil pessoas. Muitos chegam debilitados e são deixados à deriva” (Adenaldo Mabote, representante da ASTROGAZA, em declarações publicadas por O País em 15 de julho de 2026).

Segundo os transportadores, parte dos regressados chega ao território moçambicano sem recursos financeiros e sem alimentos. Alguns apresentam problemas de saúde ou não dispõem de familiares capazes de recebê-los e garantir alojamento.

O regresso não ocorre apenas por meio de operações organizadas pelas autoridades. Muitos cidadãos utilizam transportes comerciais ou regressam pelos próprios meios, o que torna mais difícil estabelecer um número oficial e localizar todas as pessoas vulneráveis.

Os principais problemas relatados entre os regressados são:

  • perda de emprego e rendimento na África do Sul;
  • abandono de bens pessoais e património;
  • falta de alimentação e dinheiro para continuar a viagem;
  • ausência de alojamento ou apoio familiar em Moçambique;
  • problemas de saúde agravados pelas condições da viagem;
  • separação de cônjuges, filhos e outros familiares que permanecem na África do Sul.

Um dos casos apresentados é o de Alberto, cidadão moçambicano que regressou depois de viver durante 26 anos na África do Sul. Ele deixou naquele país os filhos, a esposa sul-africana e o projeto de vida construído ao longo de mais de duas décadas. Chegou a Moçambique sem património e sem perspetivas imediatas de reintegração económica.

Serviços de Migração não têm registo provincial consolidado

Os Serviços Provinciais de Migração em Gaza declararam que não possuem dados próprios sobre o total de moçambicanos repatriados para a província. O acompanhamento do movimento é realizado principalmente nos postos fronteiriços de Ressano Garcia, na província de Maputo, e Ponta do Ouro.

“A província de Gaza não tem nenhum dado registado de cidadãos moçambicanos repatriados. O movimento tem sido acompanhado ao nível das fronteiras de Ressano Garcia e Ponta do Ouro” (Abeldo Nhanombe, porta-voz dos Serviços de Migração em Gaza, em declarações publicadas em 15 de julho de 2026).

Nhanombe acrescentou que, nos postos existentes na província, as autoridades registam o movimento migratório regular e estão preparadas para responder a eventuais necessidades nas travessias fronteiriças.

A ausência de um cadastro provincial significa que a cifra superior a 10 mil deve ser entendida como uma contagem da ASTROGAZA baseada no movimento dos transportadores. Não se trata de um balanço oficial único produzido pelos serviços migratórios, pelo Governo provincial ou por uma operação centralizada de repatriamento.

Essa distinção também é relevante para definir quem pode receber apoio. As operações governamentais realizadas anteriormente concentraram-se em cidadãos identificados como vítimas de ataques, retirados de zonas de risco ou alojados temporariamente em locais seguros antes do transporte para Moçambique.

Quem pode procurar assistência após regressar

Os relatos publicados em julho não apresentam um novo programa nacional com critérios próprios de inscrição, pagamentos ou subsídios destinados às mais de 10 mil pessoas contadas pela ASTROGAZA. A assistência documentada durante operações anteriores foi dirigida sobretudo a cidadãos afetados diretamente por ataques xenófobos e incluídos em processos organizados de repatriamento.

Entre as pessoas em situação prioritária estão:

  • vítimas de agressões ou expulsões;
  • cidadãos feridos, doentes ou debilitados;
  • crianças e outros dependentes;
  • pessoas sem meios para pagar transporte até à província de origem;
  • regressados sem alimentos, abrigo ou apoio familiar;
  • cidadãos que perderam documentos durante a fuga;
  • pessoas retidas na África do Sul sem recursos para regressar.

Em junho, o Governo moçambicano organizou o transporte de mais de 500 cidadãos afetados pelos ataques ocorridos em Mossel Bay, no Cabo Ocidental. Os regressados foram encaminhados para Maputo, Gaza, Inhambane e Manica. Cerca de 300 pessoas já tinham regressado pelos próprios meios antes da operação.

Outras operações incluíram aproximadamente 600 cidadãos acolhidos no Stadium Community, em Mossel Bay, e cerca de 350 moçambicanos expulsos das suas casas em Mamelodi, nos arredores de Pretória. Entre estes últimos estavam perto de 70 crianças.

Os cidadãos que regressam de forma independente devem apresentar-se às autoridades migratórias e administrativas na fronteira ou no local de destino, sobretudo quando necessitam de documentação, transporte, assistência médica ou encaminhamento social.

Regressados chegam doentes e sem proteção contra o frio

Transportadores que operam entre Gaza e a África do Sul afirmam que continuam a encontrar moçambicanos em condições de saúde preocupantes. Os relatos incluem pessoas sem alimentação adequada, cobertores ou recursos para suportar o inverno sul-africano.

“Há pessoas que ficam muito tempo sem apoio. Algumas estão doentes, outras não têm sequer cobertores. Todas as semanas chegam mais de 20 pessoas em condições de saúde preocupantes” (operador de transporte ouvido por O País, julho de 2026).

Os operadores também relataram casos de cidadãos deixados em território sul-africano sem condições para prosseguir a viagem. Parte dos regressados ainda precisa de transporte entre a fronteira e os distritos de origem, o que aumenta os custos para famílias que já perderam o rendimento obtido na África do Sul.

A situação atual ocorre depois de ataques registados no final de maio em Mossel Bay. Naquele episódio, mais de 800 moçambicanos foram afetados e sete cidadãos morreram: cinco em consequência direta da violência e dois num acidente rodoviário durante o regresso a Moçambique. Pelo menos 300 pessoas regressaram por meios próprios, enquanto mais de 500 permaneceram temporariamente num local seguro antes do repatriamento.

Fronteiras concentram o acompanhamento dos regressos

Ressano Garcia permanece como um dos principais pontos de passagem entre os dois países. Ponta do Ouro também é utilizada no acompanhamento dos movimentos migratórios provenientes da África do Sul, segundo os Serviços de Migração de Gaza.

Para os cidadãos em deslocação, os documentos essenciais são o passaporte ou outro documento de identificação disponível. Quem perdeu documentos durante os ataques deve comunicar a situação às autoridades migratórias e consulares para identificação e regularização do regresso.

A África do Sul também reforçou as operações de fiscalização migratória. O Governo sul-africano informou que 15.398 estrangeiros foram deportados entre 1 de abril e 30 de junho de 2026, no âmbito da aplicação da legislação migratória. Durante o mesmo período, foram realizadas 2.519 operações conjuntas de fiscalização. Esses números abrangem várias nacionalidades e situações migratórias, não apenas cidadãos moçambicanos ou vítimas de violência xenófoba.

Para quem regressa a Gaza, a necessidade imediata é o registo individual das chegadas e das condições de cada família. Sem esse levantamento, os transportadores contabilizam o fluxo, mas as autoridades não dispõem de uma base provincial única para encaminhar assistência médica, social, documental e de transporte.

Os dados publicados em 15 de julho mostram duas realidades simultâneas: a ASTROGAZA regista mais de 10 mil regressados em cerca de duas semanas, enquanto os Serviços Provinciais de Migração não apresentam um total oficial específico para Gaza. Em ambos os relatos, permanece o mesmo problema: cidadãos chegam da África do Sul sem bens, trabalho ou meios para reconstruir a vida em Moçambique.

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